
Estranho esta vida feita de ausências tuas,
de enredos meus,
ideias alheias ao que um dia fomos.
Tu de um lado e eu do outro,
na ignorância de haver fim.
Mas havia.
Agora é a nostalgia do teu rosto.
Eterna como o desejo.
Pudesse eu transpor este abismo
e resgatar-te das minhas sombras,
realidade serias e eu contigo de braço dado
como naqueles passeios ao fim da tarde
lá na aldeia com gente a cumprimentar
na verdade a tentar perceber o que fazíamos ali.
Fazíamos o amor.
Não que o soubéssemos então.
Hoje sim,
mas porque partiste.
Como os bichos, lembro-me de te ouvir dizer.
Se ficarmos aqui seremos como os bichos,
incapazes de outro sentir que não seja o desejo da carne
a ansiedade do prazer.
E depois nada.
Nada que recorde o tempo de outrora,
a ideia de termos existido.
Mas logo a seguir fomos noite dentro
em direcção ao quarto à cama ao prazer.
Tu descomposta na arbitrariedade de te dares.
Eu, incerto de te ter.
Não que a carne nos fosse estranha
ou os seus enredos.
Não era.
Mas partilhar o amor é inventar outras terras
outros costumes outras gentes.
Um tempo distinto em que nascer e morrer.
Nunca o amor contigo me pareceu estranho,
tal era a certeza de entre nós haver um mundo a partilhar,
a descobrir.
Houve depois a precariedade,
os caminhos que nunca se sabia como terminariam.
Mas eram os caminhos dos outros.
Nós passávamos ao lado.
Depois já não.
A tua doença, a minha desilusão.
Impossível conciliar,
regressar ao ponto de origem,
recuperar o milagre.
Sempre dos outros, todavia.
Amarna, 29 de Maio de 2010
JC
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